segunda-feira, junho 15

Retornar à vida é tão ou mais estafante que sair dela.

No entanto, é a única travessia para a qual estive sempre preparada, sem nunca estar pronta. A vida me empurra para dentro da vida, mas poucos sabem o seu significado subjacente. Toda forma de vida vale a pena. Deve ser por isso que a tinta da minha caneta nunca seca, mesmo quando não há mais papel onde pousar tanta escrita. Minha atração pelas formas brutas e estados mais intensos do existir psíquico me enredaram, nesses últimos meses, para os falanstérios insuperáveis da imaginação, sem que eu pudesse fincar pés na realidade. Hoje os pés me calçam, e não eu a eles, e caminham comigo de volta para casa. Ainda descalça, arrisco os primeiros passos sem esquecer que carrego todas as ventanias na bagagem. Mas me atrevo a dizer que ainda persigo moinhos de vento. As asas que me permitiram o vôo são as de Ícaro, e como não houve jeito de pensar noutra alegoria que não a dele, vocês sabem o final da história. Estarão derretidas nas próximas horas, as minhas asas, e quem sabe eu as substitua pelos escarpados nauseantes para os quais subirei, e arrisque um vôo, um salto de pára-quedas, com todas as instruções de uso do verbo sonhar.