domingo, outubro 18

Passeio Noturno

lembro-me que à meia-noite, bem alto, na estrada de Orion, brilhava uma Lua como nunca vi mais cheia, que cabeleira solta, os seios nus, o olhar de louca a me varar o peito de súplicas e doestos. Não sei como foi, mas sei que foi diferente de tudo o que sentia antes. Meus ouvidos, como conchas, pareciam recolher os ruídos mais longínquos do Mar que estilhaçava em mim. Ouvi o sopro da noite, o cair das folhas, o germinar das plantas que boliam fora. Senti-me sem peso, sem dimensão, sem matéria. Meu Ser volatizou-se para a Lua, transformando ele próprio em substância lunar. E comecei a escrever como nunca dantes como um fogo-fátuo a crepitar da minha carne em agonia.

(*)