Cinza
Hoje o dia está morno. Sabe morno? Mas no bom sentido. Aquele sentido que lembra um chá de anis, morninho, ou um banho morno, ou de bolo saindo do forno, que a gente espera dar uma esfriadinha, e prova asssim, morninho. Um dia de sensação meio branca, mas não bem branca, apenas clarinha, com nuances de cinza, cinza azulado, porque pra fazer o cinza, tem que ter o azul, sabia? Tenho que apurar meus olhos, e sentidos todos para apreciar os meio-termos. As calmarias. As não-notícias. O filme mais ou menos. A conversa que foi meio fiada. O final não surpreendente daquele livro. A reação não tão intensa. Os meios sorrisos. As eventuais faltas de assunto. Não existe exatamente o tédio. O que existe é o entre espaço. Intensidades ininterruptas geram estresse. Uma vigília permanente pela próxima emoção. Estado de esperar. Às vezes, não esperar nada pode ser bom. Saudável. Salutar. Está certo que ando controlando a ansiedade com umas gotinhas mágicas que o doutor me deu, calar as feras internas é trabalho árduo, mas tá legal assim, Não ando tendo tantos pesadelos à noite, e o sono tem vindo assim, como o dia, morno, apreciável ao toque, acolhedor como uma cama com almofadas fofas. Almofadas de florzinhas coloridas e fundo cinza, porque afinal o cinza também pode ser bem bonito, e o morno, pode ser bastante reconfortante. Um entre espaço até a próxima emoção, que virá em cores fortes, lilases intensos e temperaturas em alta.
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